Sarvet Vermelhalvorada
O Desejo da Duquesa
Era uma noite fria nas terras de Dunkelheit. Após um opulento jantar, o Duque Lucius se recolhia uma vez mais em sua biblioteca particular no andar mais alto de seu casarão. A lareira enânica queimava carvão importado de Sindrassil, tracejado uma luz esmeralda sobre as fileiras quase sem fim de estantes enquanto o esbelto nobre respirava fundo, relaxado.
Sentado sobre sua, o lorde tinha vista para seu amplo e bem cuidado jardim, meticulosamente selecionado e moldado para criar a ilusão de teias de aranha. Por um motivo ou por outro, as decorações aracnídeas que transbordavam suas posses faziam-no sentir sob controle. E, enfim, ele podia aproveitar os luxos de uma vida de nobreza após a reconstrução de seus domínios.
Marcando a página, Lucius estende a mão até o bule de chá que descansava em seu criado mudo e, após servi-lo em uma xícara de porcelana, ele aproxima o líquido fumegante de seu queixo para inspirá-lo e aproveitar seu calor. As noites frias de Platina sempre foram desafiadoras, mas um chá quente era uma companhia melhor que muitas acompanhantes, afinal, não duvidava, não questionava e tampouco, precisava ser controlado.
Conforme ele degusta o amargo sabor do hibisco sulista com notas de canela e uma pitada de limão ellesmeriano, seus olhos recaem sobre as estátuas no centro de seu jardim, como a viúva negra sobre sua teia cristalina. Como o segundo abdômen do aracnídeo, duas estátuas olhavam para dentro da morada, Lorde Lucian e Lady Alicia, enquanto, outras três estátuas, equidistantes, encaravam as três entradas do jardim, como as presas da aranha. Estas seriam de gêmeos, um em robes empunhando um tomo e o outro com uma elegante armadura empunhando uma espada, enquanto no centro, uma menor, quase infantil, com um sorriso inocente, agora junto aos gêmeos, de costas para Lucius.
Ao ponderar um pouco mais sobre o quinteto de mármore, o homem se ergue e se aproxima de sua gótica sacada. Dando um último gole em seu chá conforme seus olhos acompanham uma figura ser escoltada por seus guardas a partir dos portões. Normalmente, esta seria a hora que Lucius sorriria, ao carregar mais um passo brilhante de seu plano maquiavélico, mas ao invés disso, apenas se mantém sereno, deixa sua xícara no lugar e limpa os lábios com um pano de bolso.
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| <Capitão Sarvet Vermelhalvorada> |
O visitante era uma figura misteriosa, de estatura média e coberto com um manto negro de pontas rasgadas que jogavam uma máscara de sombra sobre seus olhos vendados e, em seu rosto, era vivisel apenas duas mechas de cabelo vermelho sangue, que escorriam até o peitoral. O que chamava atenção, eram tatuagens vermelhas na bochecha e na testa que lembravam rachaduras.
Dois guardas platinos caminhavam pelos flancos do estranho, levando-o até os portões do casarão, onde o soldado da direita, com um passo à frente, abre a porta e se curva, convidando-o. Torcendo para a esquerda e depois para a direita, o manto dança levemente antes de seu dono dar um passo à frente e falar sua primeira palavra da noite.
-Com vossa licença, cavalheiros… -Fala com um gesto educado da mão, seus olhos se erguendo para a grande escadaria do hall de entrada enquanto infla seu peito em antecipação.
-Ora, vejam se não devo ser o homem mais sortudo de Platina! -Dizia o Duque da Teia de Aranha de braços abertos em uma voz calorosa ao descer as escadas como um rei. -O homem mais importante de Eldrassil veio até minhas humildes terras fazer-me uma visita! Explêndido!
-Lorde Lucius. -O encapuzado assente lentamente. -Que cortesia. Estou demasiado grato em ser recebido por ti.
-Pois bem, pois bem! Guardas, poderiam deixar-nos a sós? -Abana o Lorde ao começar ao descer as escadas, os interlocutores assentindo e retirando-se de pronto. -Queira me acompanhar?
Com um assentir de cabeça, o visitante começa a acompanhar o anfitrião soturnamente. Ainda que tivesse vindo de longe e carregasse uma armadura negra pelos sons que ecoavam nos corredores, não havia lama em suas botas, tampouco sereno em seu manto. Conforme ele observava os quadros e outras relíquias opulentas do lorde, enfim uma sala de estar se revelava.
-Oh por favor, estamos a sós, General. Deixe-me tirar seu manto para ficar mais confortável e não há necessidade de vendas-
-Grato. Entretanto, temo recusar. -Dizia o visitante com as mãos em frente do peito, removendo seu manto e pondo-o a descansar sobre um mancebo.
Diante do Duque revelava-se um dos poucos homens que a própria Imperatriz iria temer. O visitante era um elfo de longos cabelos escarlate espetados como a crina de um falcão no topo da coroa, junto de longas orelhas pontudas apontadas para cima e tatuagens de rachaduras no rosto. Seu corpo carregava uma armadura de aço negro, com ornamentos vermelhos como as tatuagens e olhos esmeralda brilhando por debaixo de uma venda preta.
-Certamente, M’lorde Vermelhalvorada… Queira se sentar. Eu insisto. -Ainda que a expressão do duque torcesse por uma fração de segundo, ele logo sorri e aponta à uma poltrona diante de um conjunto de velas sobre uma mesa de centro. -Aceitaria… Uma xícara de chá?
Conforme a figura élfica confirma com a cabeça e toma seu assento. A natureza daquela sala se fazia evidente. Uma lareira brilhante iluminava e aquecia o cômodo conforme as paredes de mármore tracejam estátuas e quadros do que outrora fora uma família orgulhosa, talvez até feliz. O anfitrião serve duas xícaras de um novo chá fumegante e dourado para seu visitante, oferecendo dois cubos de açúcar antes de adoçar seu próprio chá. Aos olhos de seus súditos, pareceria que o lorde da teia de aranha estava na companhia de um amigo pessoal, do contrário, ele nunca ofereceria servir outra pessoa. A relação do homem e do elfo, entretanto, escondia uma verdade mais sombria.
Após degustar o chá do lorde, o cavaleiro suspira e pondera com os olhos sobre um dos quadros, o de um jovem e valente cavaleiro humano, o mesmo representado nas estátuas do jardim.
-Lorde Dunkelheit… Imagino que tu saibas o porquê de minha visita, ou estou enganado?
-Bem, Sir Sarvet, a parte mais interessante desta visita é que as possibilidades… -Lucius abre um sorriso ao olhar para os afrescos no teto, descendo a cabeça displicente para recair os olhos sobre o homem de preto. -...São infinitas.
-Seriam elas? Em verdade? -O ruivo leva a xícara à boca e bebe mais um gole ao cruzar as pernas.
-Evidentemente, colega… Você poderia tanto ter vindo aqui para eliminar as últimas pontas soltas de seu trabalho quanto poderia ter cedido à influência da entidade que eu outrora chamei de “Patrono.” -O sorriso do duque se afia como a adaga de um assassino. -Não saber como essa visita afetará o meu destino é… Um deleite.
Saboreando o momento da mesma forma que saboreava o seu chá, o duque sorri para Sarvet ao apoiar seu cotovelo no braço da poltrona e, em sequência, a própria bochecha sobre o punho. O cavaleiro suspira, como se desistisse de uma causa perdida, mas, por mais ardiloso que o duque pudesse ser, não foram ímpares suas derrotas no campo das ideias.
-Luciel. -Fala o elfo.
-O que tem ele? -Indaga o humano, sentindo seu sorriso trincar.
-O que ele era para ti? Lembra-te de seus últimos momentos? -As palavras empáticas do guerreiro eram como punhais rasgando o orgulho do cultista.
-Meu irmãozinho? É claro. Ele era um idealista. Morto duas vezes pelo próprio falso moralismo. Por que isso interessa?
-Tu julgas que a morte dele, a final, tenha sido em vão?
-Evidentemente. Luciel sabia que não poderia vencer o avanço de uma aberração do calibre de Illgunoth, e ainda sim pôs-se diante dele clamando por justiça. Hmpf! -Lucius bufava desviando o olhar, como se lembrasse de um baderneiro qualquer.
Os olhos de Sarvet se fecham. Seus pulmões inflam e, após uma rápida meditação, seu olhar recai sobre o duque novamente a ponderar. O olhar do cavaleiro, contudo, era secretamente uma das únicas fraquezas do duque, pois nele não havia julgamento ou ódio. Não, estes olhares do mundo, ele estava acostumado a lidar. Eles eram desafios os quais Lucius salivava para subverter e vencer a fim de rir por último. Entretanto, de alguma forma, ele sabia que os olhos do vendado expressavam uma dor sincera, pena por ele e este sentimento, o enraivecia profundamente.
Uma respiração profunda, um punho fechado e uma correção de postura depois, e Dunkelheit controla seu impulso. No entanto, a resposta do elfo chegaria suavemente antes que sua máscara de cinismo fosse reconstruída.
-Ele fez isso por ti, Lucius.
-C-como?
-Sir. Luciel… -O elfo hesita. -Dava ínfima importância à Illgunoth, bem como ao Culto da Rosa Negra. O que o levou a iniciar essa guerra entre os nossos foi a família que ele jurou proteger tanto em vida quanto em morte.
-Está me dizendo que… -As pupilas do anfitrião afiam enquanto suas mãos tremem retornando a xícara e o pires sobre o criado mudo.
-Teu irmão se sacrificou… Por vós. -Sarvet conclui com pesar.
Aquelas palavras…Haviam poucas outras formas de ferir o ego blindado do cultista. De pronto ele pensa que o elfo, seu inimigo de outrora, poderia estar usando da memória perdida de seu próprio irmão para manipulá-lo… Não. Isso… Não faria sentido, o patrulheiro não era deste feitio. Então o que? Que outro motivo haveria se não a verdade?
-Impossível! Luciel me odiava! Tanto que me perseguiu em sua morte e tomou Alice de mim… A única família que me rest-
-E tu acaso estavas aqui? -O elfo o indaga, ainda sereno, bebendo mais um gole do chá e acompanhando o cultista com a cauda do olho. -Seria um equívoco dizer que Illgunoth havera consumido por completo tua consciência naquele instante e, diante de seu controle, Alice tornou-se nada além de um plano de contenção?
Abrupto, Lucius se ergue da poltrona, seu punho cerrado e seu queixo erguido conforme o nojo se esboçava em seu semblante. Uma sombra cai sobre seus olhos que exibiam um brilho púrpura sobrenatural, lembrando o próprio horror extraplanar que estava sendo discutido até então. O silêncio recai sobre aquela sala uma vez mais, contudo, fazendo surgir aos ouvidos sons da brisa noturna, bem como um canto singular de aves platinas.
Sarvet contudo, mantinha-se imóvel. Estivesse ele preparado, displicente ou apenas obstinado, o elfo não estaria intimidado. Elegantemente, o chá do Vermelhalvorada é terminado antes do conjunto de xícara e pires serem deixados para descansar sobre o móvel, enquanto, com braços abertos, o olhar do visitante retorna tranquilo ao seu anfitrião. Lucius, por outro lado… Bem, este estava acostumado a mentir, manipular e conjecturar toda e qualquer cadeia de poder para conseguir o que queria. Seu sorriso dominante e sua mente auspiciosa eram armas que se provaram capazes de conquistar a vitória sobre qualquer um, ainda que, elas não pareciam funcionar com Sarvet.
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O questionamento era como um estrondo em um vitral. Conforme Lucius encara a forma de Sarvet, sua mente reflete múltiplos fragmentos de uma narrativa. Eis que o mestre das trevas encontra contudo… humor. Sim pois, um Lucius de outrora não suportaria tal verdade e rapidamente iria recorrer à mais mentiras, mas o Lucius de hoje, oh! Este havera abandonado a crença no despropósito e na insanidade, agora ele servia uma nova entidade, uma concreta, com um ensinamento igualmente errático, ainda que voltado ao poder interior para a mudança e o alcançar da supremacia através do caos.
Rindo como louco, o duque cobria sua face esquerda com a mão, ao projetar maníacas gargalhadas que ecoavam pelos salões do casarão. Seu poder cresceria nas possibilidades mais improváveis, assim como este também seria seu juramento de morte.
-WAHAHAHA! TEM RAZÃO, CAPITÃO! -Bradava o duque, caótico. -De forma alguma! Ao mesmo tempo que fiz todas as escolhas de minha vida, as linhas do destino foram tocadas e arrebentadas como as cordas do alaúde de um menestrel, não foi? -Ao enfim se recompor, ainda rindo baixo, o Dunkelheit abaixa seus braços com a sombra de seu rosto recuando. -E agora? O que pretende fazer? Não posso acreditar que veio até minha morada apenas para me dizer isso.
-Muito perspicaz, Lorde. -Negando com a cabeça, o elfo se ergue, ficando de frente com o maníaco mestre das trevas, confrontando-o, olho no olho. -Em verdade, jaz-me aqui para realizar o desejo de dois caros amigos. O primeiro era o de Luciel…
-Que tocante… Meu irmãozinho precisava saber que ainda se importava com ele. -Ironiza o cultista. -Pois bem, e de quem seria o segundo?
-Da pequena Alice.
Por fora, o duque apenas pisca e respira fundo, parecendo enfim relaxar. Ombros leves, olhar desviando ao chão antes de voltar ao visitante mais uma vez e um passo à frente, pintavam um novo quadro do cultista.
-E ela… está bem?
-Sob as Graças de Fênix Dourada. -Sarvet responde com um sorriso suave. -Ela amadureceu rápido, se tornou uma mulher astuta e orgulhosa, ainda que falhou em abandonar sua pureza.
-Bom. De todo modo… Pretende me falar do desejo dela, ou devemos jogar uma partida de xadrez primeiro?
-Heh… Não será necessário. -Sarvet responde com uma risada, um tom de leveza e intimismo surgindo no ar. -A pequenina, bem… Ela sente sua falta.
Enfim, os inimigos de outrora pareciam chegar a um assunto consensualmente caro a ambos, denotando um estranho respeito entre rivais.
-Tem certeza? Eu… -O duque abaixa o queixo pela primeira vez naquela noite.
-Estou certo da minha afirmação. -Assentindo antes de caminhar até a janela e vislumbrar o jardim do Dunkelheit, o elfo responde. -Com o expurgo de Illgunoth, eu a dei uma escolha. Ficar conosco na Casa do Sol Escarlate ou voltar ao que restou de sua família. Após sua ponderação, Lady Alice escolheu… Bem…
-Voltar para casa?
-... Precisamente. -Responde o Capitão após certa hesitação, voltando-se mais uma vez ao anfitrião.
-Isto é… Bem… Que bela surpresa… -Responde o conde com um sorriso soturno. -E você pretende… Me devolver minha irmã… Aquela que fez a guerra entre os nossos começar? O inferno deve temer as exigências que tens a propor. Devo renegar à Dama Carmesim e converter meu culto à ti, grande herói? -Ainda que as palavras de Lucius fossem cínicas, de alguma forma seu interlocutor sabia que nelas havia uma ponta de sinceridade.
O visitante nega com a cabeça. -Meus negócios com a Imperatriz serão resolvidos entre mim e a própria. -A face do vendado se ergue mais uma vez para o Lorde da Teia de Aranha. -Alice é agora uma adulta e ela fez uma escolha. Ainda que meu diabo interior urge por fazer um pacto convosco e colocá-lo sob meus grilhões… Não estou em posição de fazer exigências.
-Ah, não? Ora… Que parágono de sua parte, Capitão…
-No entanto, quero deixar uma coisa bem clara… -Uma sombra recai sobre os olhos brilhantes do Cavaleiro de preto. -Tu receberás a garota como tua irmã, não como instrumento e jamais tomará uma decisão em seu nome. Caso contrário… Voltaremos a nos encontrar.
-...Pois bem. Neste caso, esta será nossa última conversa, Capitão.
Por mais insano que o maquiavélico líder do Culto da Rosa Negra fosse, por mais caótico que fosse sua natureza, Lucius era um homem sábio. Sábio o bastante para desconstruir uma nação inteira e transformar a derrota mais vexaminosa do mundo em um trunfo de ascensão. Sábio o bastante para conquistar o tão raro sorriso da Imperatriz dragão, e portanto, sábio o bastante para entender o real perigo da fúria de um homem bom.
Com um sorriso, o elfo se levanta, seus escaldantes cabelos dançando suavemente com a brisa. Sua mão, coberta com uma manopla negra se ergue em um gesto de comprimento para o lorde, levando o humano a responder, ainda que hesitasse por uma fração de segundo, com um aperto de mão. Um pacto silencioso era então fechado, não por dois inimigos, mas por dois homens.
-Fico feliz que tenhamos chegado em um acordo tão civilizado, Capitão. -Dizia o sacerdote com seu característico sorriso afiado ao retornar sua mão e ajustar seu paletó.
-Tu não falhas em me surpreender, M’lorde. -Responde Sarvet vestindo sua capa e rumando para a porta. -Apesar de nosso passado, foste um exímio anfitrião. E, diga-se de passagem, estás de parabéns por vosso chá.
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Ponderando sobre o luar e o brilho nebuloso das estrelas que cobriam suas terras, o Duque Dunkelheit observa dos portões conforme a figura do visitante parte de seus jardins, navegando pelo caminho aracnídeo. Por um instante, Sarvet, olha sobre seu ombro, fitando o ducado que deixaria para trás, o lugar para onde a garota que tanto protegeu decidiu voltar…
Seus olhos esmeralda cobertos pela venda negra ponderam então sob a estátua dos irmãos gêmeos, como se apreciasse a visão da imagem de Luciel uma última vez. Um suspiro silencioso é lançado antes dele pôr seu capuz mais uma vez e deixar aquele jardim pelo portão central. Tão logo o lorde e seus homens perderiam o elfo de vista, tão logo seus destinos, outrora cruzados, iriam seguir caminhos separados e, tão logo, a pequena aranha voltaria ao seu irmão, reunindo mais uma vez o que restou da família Dunkelheit.


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