Lledritch Do'Urden e Orgoth Come-verme
A noite caía enquanto a Stargazer atravessava a zona selvagem de Mizo. Em seu quarto, Orgoth se sentava, descansando uma de suas mãos sobre a cabeça de Brox enquanto olhava para uma Asuka desmaiada que florescia flores de Higanbana. Como uma criança curiosa, ele observava, estranhamente entretido ao assistir um processo tão lento, ainda que tão mágico. Era uma distração para ele, seu único entretenimento dentro da embarcação, especialmente durante a navegação.
| Orgoth Come-Verme || Orc Lobo de Ferro || Bárbaro |
Subitamente, contudo, algo o chamaria a atenção. Da porta de madeira, uma entidade adentra, dando longos e elegantes passos com seus pés estranhos e afiados. A figura esguia, de pele dura e perolada rapidamente captava a atenção do orc, que virava a cabeça tentando reconhecê-la. Seu rosto lembrava o de Oldrinn, mas ela era alta e fina, encoberta com uma estranha capa natural e, conforme suspirava e se sentava na cama que sobrava exala um aroma único.
| Lledritch Do'Urden || Drow An'qirir || Necromante |
-Mulher... Cheirosa. Lembra Orgoth de casa. -Os olhos da besta fitam os de âmbar da visitante por trás de seu claustrofóbico elmo de ferro sujo.
A mulher, que estava falando há alguns instantes, percebeu perder a atenção do monstro assim que entrou, ele, portanto, não ouvira uma palavra dela sequer. Ao invés de se irritar, a bela criatura assente com um suave sorriso. -Jura? Imagino que sejam os lírios púrpura, não?
-Flor... Mesma flor que Oldrinn. Cheiro bom. Mulher amiga de Oldrinn?
-Bem... Pode-se dizer que sim. -A donzela move milimetricamente seu rosto e, ao gesticular elegantemente com a mão, se apresenta. -Sou a capitã Lledritch Do'Urden. Mas você pode me chamar de "Mulher Cheirosa", se preferir.
Para um orc deformado como Orgoth, só conseguir falar como ele fala já era um desafio. Um nome tão complexo como o da capitã, bem, este seria um trabalho hercúleo. Ela nota um olhar fixo mas, de alguma forma, grato por trás do elmo do bárbaro.
-Mulher parece Oldrinn… E, e… Parece “Dara”, moça bonita que cuida Orgoth… Parecida diferente. -Como uma criança no corpo de um monstro, Orgoth fitava Lledritch, sem desviar o olhar por momento algum. Era evidente a dificuldade que o mesmo tinha para sequer entender interações sociais.
-”Dara”? Que fofo… -Chacoalha a cabeça. -É, somos parecidas… Foi ela que te trouxe aqui, não é, grandão?
-Zug Zug. Oldrinn disse que ia encontrar cura de Orgoth… Eh… Su… Su… Surpe…
-Na superfície, hm? Bem, acredito que ela estava certa. Afinal, tua cura está mais perto do que nunca. -Ao gesticular e erguer sua mão em uma pose nobre, a mulher sorria para o bruto enquanto pousava a outra mão sobre a cintura. -Qual é a sensação?
-Hmm… Orgoth… Não sabe. -Ele respondia erguendo um dedo até o lugar onde ficaria a sua boca. -Orgoth não pensa muito nisso.
-Não pensa? Eu tinha entendido que este era o teu objetivo… Mas acho que estou começando a entendê-lo.
Descansando seu corpo enquanto olhava para a nova Asuka adormecida, uma corrente de pensamentos passam pela cabeça da tirana. Seu silêncio, contudo, é apenas respondido com serenidade e paz do homem-monstro. Ao mesmo tempo que seu jeito é tão singular, era também muito familiar.
-Orgoth, se importa se eu lhe perguntar algo? Quem é você? -A voz da deusa sussurrava em um mistério complexo demais para o grandalhão entender.
Após ponderar bastante, o Orc deformado respondia, voltando a olhar para o chão. -Orgoth… é Orgoth. Muito prazer…?
-Huhuhu… Não, tolinho! -A donzela suavemente se projeta para frente, seu cotovelo se apoiando em seu joelho e seu queixo em sua mão. -Quero saber quem é você de verdade. Quem é Orgoth. Do que ele gosta, o que ele deseja… pelo que ele luta?
O monstro pisca. Seus olhos se virando para a mulher mais uma vez, e sua cabeça girando para o lado. De alguma forma, estes questionamentos nunca o alcançaram, afinal, até onde podia se lembrar… Orgoth apenas servia ou não servia. Passivamente reagindo ao mundo e às pessoas que encontravam utilidade nele.
-Orgoth… hum… -O esforço da besta era visível, mas a madame da noite entretia-se ao vê-lo buscando a si mesmo. -...Orgoth… Gosta lutar, gosta Brox e gosta… música!
Ouvir aquilo iluminava o rosto da mulher. Orgoth, para Lledritch era exatamente o tipo de pessoa ideal para desenvolver-se em um fiel da Deusa da Lua. “Prisioneiros silenciosos”, como ela definia, alguém que precisa da umbra da noite e a luz das estrelas para encontrar o caminho para a sua liberdade e, por conseguinte, o caminho para si mesmo.
-Ora! É um bom começo! Conte-me mais! O que você deseja, grande guerreiro? A adrenalina das batalhas mais sangrentas? A ascensão como um gladiador indomável? Ou a vingança contra aqueles que lhe fizeram mal? -A mulher fechava o punho enquanto seus olhos faiscavam em uma empolgação contagiante.
-Isso…! -Para muitos não seria perceptível, mas Orgoth, ainda que não demonstrasse, sentia correntes se quebrando em sua mente. -Oldrinn diz que Orgoth tem que se vingar. O que Chefe Hav’rok fez com Orgoth foi ruim… E Orgoth quer lutar, grande luta! Mas Orgoth não sabe…
-Hm? O que te deixa incerto, Come-verme? -Perguntava a vespa, intrigada.
De maneira grotesca, a criatura respira fundo, fazendo estranhos sons e até escorrendo algum tipo de muco de frestas do seu corpo. -Orgoth… não se lembra… Orgoth sabe que morou na tribo Rouba-Crânios, e era amigo de Harv'rok, mas ele não sabe… como era antes de… -Ele abre as mãos em um gesto de apresentar a si mesmo.
-Mudar,hm?
Orgoth acente com a cabeça, silenciosamente. Mesmo que não fosse possível ver seu rosto, o monstro claramente expressa decepção. -Orgoth não… Conhece Orgoth mais.
Ah a mudança… velha conhecida de Lledritch. De alguma forma não esperada, a fala triste do bárbaro faz eclodir um sorriso na beleza élfica conforme se levanta. Respirando fundo, Lledritch caminha até ele e se senta ao seu lado, pondo sua mão sobre o ombro da grotesca besta.
-Eu entendo, grandão. Se transformar não é para qualquer um… Mas, para aquelas pessoas especiais como você, bem… Pode ser algo excitante!
-Orgoth… Especial? Mulher cheirosa acha? -O rosto de ferro do orc se erguia para encontrar os olhos de sua interlocutora.
-Oh não… Eu não acho isso. Sei disso, Orgoth. Afinal, eu tive a oportunidade de conhecê-lo antes… Quando ainda era outra pessoa. -Com um sorriso e um toque gentil sobre o ombro, a mulher expressava um estranho orgulho.
-Hã? -Orgoth se afasta em um reflexo ao ser tocado, seus olhos piscam, como se tentasse processar essa informação. -Mulher Cheirosa conheceu Orgoth?
A Vespa de Mármore, tão imponente e irreverente, agora olhava para Orgoth com ternura. Como se compadecesse-se com sua causa e história. -Conheci… há uns 20 anos atrás… E tu era um bárbaro admirável. Não tinha medo de nada, era forte como um minotauro e vigoroso como um Bullete. Mas sabe o mais cativante? Aquele Orgoth tomava o que queria e desafiava quem queria. Não tinha medo de apontar o dedo nem para o seu Chefe Guerreiro! -Com o rosto iluminado, a mulher parece se alegrar só de lembrar. -Es inspirador.
Ainda que, por trás do aço retorcido de seu elmo, os olhos albinos do orc brilhavam, e brilhavam como poucas vezes antes. O gigante tímido, se vira para a matriarca dos Vigilantes das estrelas e sorri pela primeira vez naquela tarde. Após tomar alguns instantes com um olhar sonhador, a criatura parecia tomar um tempo para ponderar sobre o passado que não conseguia lembrar.
-Orgoth… Acha que quer ser Orgoth de novo.
-Oh! Imagino que sim, meu querido. Mas tu ainda és Orgoth. Eu vi o outro homem que tu se torna ao lutar… -Os olhos da mulher cintilam enquanto ela sorri admirada. -...Não importava os golpes que recebeu quando lutamos contra Lordravin, tu não teve medo, receio e tampouco vergonha.
-Ah… Quando Orgoth luta… As vezes perde o controle e ataca… tudo. -O rosto tímido do gigante se ergue, olhando-a com uma expressão estranha. Parecia mais sábio e confiante do que nunca. -Acha Orgoth bravo parecido com Orgoth velho?
Surpresa, a elfa pisca algumas vezes. Tão logo, vira o queixo e fecha os olhos enquanto sorri com uma gentileza que pouco combinava com sua natureza. Um momento de silêncio entre os dois repousa e, de pouco em pouco, ambos voltam a olhar para as flores de Higanbana no sereno corpo encarnado da Mangetsu.
Os problemas de Orgoth não diziam respeito à capitã da Stargazer. Não havia por quê se importar com ele com tanto que estivesse ao seu lado. Uma Lledritch de outrora, não tardaria a encoleira-lo e usá-lo como cão de briga até sua eventual queda e decesso. Ela pensava no quanto a superfície a mudou, e, ao mesmo tempo, a fortaleceu de maneiras incomparáveis.
Com uma gargalhada silenciosa, a musa das estrelas pondera… Havia alguns motivos para se importar com o orc abandonado, mas talvez o mais relevante era que ele, tal qual os outros tripulantes, representava de maneira cristalina o ideal da Stargazer. Ele é um prisioneiro, só não de grilhões e correntes, mas das limitações ilusórias criadas em sua própria mente, capazes de reprimir seu coração.
Após um longo suspiro, a voz da mulher ascende como uma doce e reconfortante melodia. -Talvez. Contudo, mais importante que isso é que a sua fúria, faz tanta parte de ti quanto seu eu esquecido e o gigante gentil que se tornou… Escute, Orgoth Come-verme… Mesmo que você cure todo o veneno que há em você, isso não significará nada…Pois seu destino é maior do que qualquer coisa que Hav’rok, eu, ou qualquer pessoa pode traçar para ti. -A donzela orgulhosa faz um passo gracioso pela sala, rumando à saída. Pausa, e olha sobre o ombro. -Não devia ter vergonha de si. Nem de seus gostos, de seu rosto e tampouco de seus defeitos. Desprenda-se de quem você foi, guerreiro… Pois ainda há uma constelação inteira de possibilidades para ti, tudo que precisa é olhar para cima com orgulho.
Um vento noturno sopra naquele momento. E mesmo que dentro daquela claustrofóbica cabine, Orgoth notava a luz argêntea da lua entrar pela janela e banhar o quarto em um glorioso contorno. Aos poucos, vagalumes entravam ao seu quarto, pairando sobre o pequeno jardim de flores vermelhas nos pés do bárbaro, como luzes feéricas a dançar. O estranho odor da mulher se espalha pelo ar e, junto à maresia e o silencioso zumbido dos insetos, compõem uma estranha sensação ao brutamontes. Aos poucos ele se levanta, respira fundo e, apesar de todas as limitações de sua carne, todos os defeitos de seu sistema respiratório, aquele aroma vinha à ele ao encher seus pulmões.
As mãos do Orc vão até seu elmo de aço sujo e arranhado e, de pouco em pouco, ele o remove junto do capuz de carrasco por baixo do metal, mostrando seu grotesco, mas ainda, tão empático rosto. Aos poucos uma melodia se revela, o som adorável de uma música tocada em uma flauta e um alaúde acompanhada pela cantoria dos marujos do convés. Orgoth sorria, gargalhava como uma criança enquanto abria os braços e inspira fundo para sentir aquela sensação, fosse do ar da superfície, fosse do perfume de Lledritch, a doce música, outrora abafada por seu elmo, ou fosse… Outra coisa.
-É como… Orgoth nascer de novo…! Hoa Hu Ha! -O pálido gargalhava desajeitado com a mão na barriga e um sorriso repugnantemente contagiante em suas presas. Ele se vira para Lledritch e timidamente caminha em sua direção estendo a mão. -O-Obrigado… Mulher cheirosa. Orgoth… Contente.
-Huhuhu! -A mulher gargalhava, contagiada pelo homem enquanto comprimentava-o. Se para todos ele era um monstro, nesta tripulação ele não o seria e sua capitã seria a primeira a demonstrar isto. -Ora, por nada, querido! Você se diz burro, mas entendeu rapidinho! Que orgulho do novo Orgoth!
-Hu ha! -O amplo guerreiro gargalha ainda mais ao chacoalhar a mão da feiticeira quase esquecendo de sua força.
A mulher, de mãos na cintura, observa curiosa o Orc dar-lhe as costas, ajoelhar-se diante de Asuka e colher uma única flor de Higanbana, tão logo trazendo-a para Lledritch, que a recebe contente e a planta no interior de seu chapéu. Um sorriso da maga das trevas e um gesto para que ele a acompanhasse era o que se via antes que os dois saíssem de cena. Ao longe, os rios de Mizo ouviam piratas bêbados recebendo o orc e a elfa com entusiasmo.

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