Lledritch Do'Urden
MEMENTO DOS HORRORES
Ah, o Horror Pálido! Sim… acho que a minha primeira influência para imaginá-los veio de quando eu ainda era uma pequena bruxinha. Meu pai nos levou ao Circo dos Horrores, onde um famoso grupo de artistas itinerantes que cuidam de abominações tenebrosas se apresentaria. Lembro-me de ficar fascinada com o tamanho da imensa tenda de seda de aranha negra, e a enorme caravana guiada por bestas deformadas com carapaças e patas de inseto, eles tinham carne de molusco e couro de crocodilo também.
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| "Armagedilo, as imensas criaturas que carregavam as caravanas do Circo dos Horrores." |
Yihdra, Seraniel, euzinha e o pequeno A'azok, sentamos lado a lado naquele dia. No entanto, as bestas condutoras eram apenas uma demonstração do que estava por vir: Esqueletos dançantes, carniçais cantores de uma ópera gutural, além dos ilusionistas e contorcionistas apresentando-se no picadeiro onde as mais fascinantes criaturas do submundo, tentavam abocanhar os equilibristas que por vezes caíam da "corda do destino."
Oh! Fora tão divertido! No entanto, não tenho dúvidas de que o momento mais marcante fora quanto a "Fantabulosa Senhora da Morte" removeu um imenso tumor do modelo em desespero que tão brevemente se tornou a refeição da nova monstruosidade que nascia ao fundir abominação com homem.
Lembro-me de ver meus irmãos desviando os olhares ou displicentemente entediados. O único que se deleitava tanto com o momento errático quanto eu era meu amado pai, Faerothian, que sorria, inflava o peito e lambia seus lábios. Aí, aí, papai.. sou claramente sua filha.
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Sabe, o motivo de eu ter me tornado uma maga… bem, isso nunca foi uma escolha minha, mas o momento que aprendi a apreciar as artes mágicas foi quando descobri a escola de necromancia. Sim, a ilusão foi a primeira a capturar a minha imaginação, com o vasto poder de manipular a mente e a percepção, e admito ter uma quedinha pela evocação e o poder de devastar a carne com fogo e relâmpagos… No entanto, quando eu pude sentir o sopro profano da vida em minhas mãos pela primeira vez… Sim, foi então que senti o verdadeiro poder no universo arcano.
Houve uma semana em particular, onde tínhamos de trabalhar em duplas e os mestres selecionaram Excella para trabalhar junto a mim. Ela era excêntrica, confesso que não ia com a sua cara, em nossos primeiros dias, chegamos a ter um duelo mágico que terminou em empate. Nos afastamos por dois dias, mas, quando o prazo de entrega se aproxima, me dispus a negociar. Para a minha surpresa, minha nobre colega mestiça aceitou reatar nossa parceria e juntas, construímos um lindo homúnculo. A ideia do projeto era imputar a vida à uma massa morta de carne, mesmo que por poucos minutos, mas ao momento que a Srta. von Gremory sugeriu tentar criar uma forma de vida viva capaz de se mover e se alimentar, foi quando fui cativada pela ideia.
Certamente, uma Do’Urden nunca se contenta em apenas fazer o que é esperado, nós sempre vamos além, e esta aqui estava disposta em cooperar com as ideias daquela mestiça se isso significasse humilhar os meus outros colegas que não chegaram nem perto de algo tão evoluído. Bem, começamos com carne moída, moldamos seu corpo como uma esfera, mas dentro dela, um pequeno esqueleto feito de resina. Transplantei todos os órgãos vitais enquanto Excella tecia cuidadosamente uma corrente sanguínea, ainda que rudimentar por dentro da carne.
As últimas 48 horas foram de trabalho sem cessar, pesando especialmente para minha colega, no entanto, ela não demonstrou fraqueza, mesmo sob intensa pressão. Ao momento da apresentação, animamos nosso homúnculo usando um pergaminho de toque chocante. Sabíamos que ele viveria por ao menos 20 minutos, caso o sistema digestivo não funcionasse, contudo, para a nossa surpresa, ele durou pouco menos de doze horas.
"Tropeço. Adorável, a minha primeira criação."
Ele era desajeitado, rude, uma de suas patas rapidamente se quebrou, e era particularmente barulhento além de morder tudo que se aproximava de sua boca. Uma esfera de carne apodrecendo, com quatro patas que quase não alcançavam o chão onde ele andava e uma grande boca com a qual grunhia para pedir comida. Mas ele era nosso, uma criação minha e de Excella, nascida com um pedaço de nossas duas almas… O nome que demos para ele era “Tropeço”. Mal imaginaria eu que seu trágico fim não viria por nenhum outro motivo que não, uma reação terrível após se alimentar com uma fatia do bolo que fiz para nossa comemoração.
Acordei na madrugada com seu choro de misericórdia enquanto jorrava vômito e secretava sangue até seu último suspiro. Foi uma pena, Tropeço, da próxima vez, preparei um sistema digestivo mais adequado.
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Ah sim, o tempo em que fui "Suserana Do'Urden", ainda que fosse o que os mortais chamam de "Voo de Avestruz", foi alto como as estrelas.
Tinha a minha casa nas pontas dos meus dedos, os homens mais belos e as mulheres mais invejosas jogavam-se aos meus pés com medo, desejo e anseio, tudo pela sua Suprema-Senhora! Era muito mais sofisticado e muito mais belo do que essa governança sem sal que os draconídeos fazem aqui na superfície, de todo modo… eis um assunto para outro dia.
De todo modo, mesmo que tivesse tamanho poder sobre os vivos, eu ainda não tinha todo o poder que gostaria sob sua genética. Ah sim! Era para ser o tempo em que enfim teria de tudo que precisava para retomar minhas pesquisas e colocar meu título como Maga da Teia de Neon sob uso. A este ponto, meu conhecimento da morte já tinha passado por alguns tropeços, no entanto, estava bem mais avançado.
Eu tinha entendido que construir um corpo artificial não funcionaria tão bem quanto mutar um corpo natural, tampouco seria tão cativante. Os experimentos ficam muito mais esclarecedores quando se pode comprar as melhores cobaias sem resistência, como o senhor Aldrus certamente seria capaz de demonstrar.
O primeiro era magro, tinha longos cabelos negros e os tristes olhos de um escorpiãozinho que caiu da mudança. Talvez ele tivesse a esperança de roubar-me o coração e salvar sua vida, uma pena, mal sabia que, neste tempo, eu já tinha outro homem me esperando em minha cama. Ele durou duas semanas e terminou com sua pele e músculos liquefeitos. Nem me dei ao trabalho de tirá-lo de sua miséria.
Com o segundo, tentei aumentar sua massa para evitar o problema do primeiro. Alimentei-o com fartos banquetes, mas o acúmulo fez com que a mutação não se completasse e ele se transformasse em um grande “blob”, metade mutado e metade conservado. Sem a capacidade de se levantar de sua cama, os custos dele eram maiores que seus resultados, foi, portanto, descartado. Minha conclusão é que faltava energia arcana para que a mutação se completasse, e não a massa.
Um corpo escultural era o que me fascinava no terceiro, se isso fosse coisa de homem, como é na superfície, eu diria até que daria um bom guerreiro. Claramente ele foi forjado por suas criadoras como uma escultura, mas em seus olhos, jazia o vazio da vida. Criei alguns pergaminhos usando meu sangue e os ativei ao mesmo tempo. Obtivemos quase 87% de mutação, ainda que lentamente, sua massa expandiu e um controle sobre sua forma parecia crescer, emergindo tentáculos de seus ombros e garras em suas mãos, ainda que estivesse instável, o que me surpreendeu foi… Uma completa mudança em sua personalidade. Ele passou a sorrir, rir e pedir por mais, ansiava que eu alimentasse-o com meu mana e que concluísse a sua quimerização, admito que até me apeguei ao projeto. Até me lembro de seu nome: Sozserion.
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| "Sozserion em mutação." |
Em uma noite de enxame, trouxe Hateon ao meu laboratório. Já éramos noivos e meu plano era transformá-lo em um ser perfeito para governar ao meu lado, mal pude acreditar quando vi o seu rosto no momento que puxei a cortina. Palidecido e horrorizado, ele tentou disfarçar com um receoso fascínio. Me pediu para explicar detalhe por detalhe o que eu tinha feito e quais feitiços usara e tudo mais. Até que, ele se agachou na frente do meu experimento e perguntou como ele se sentia. Sozserion sorriu com olhos vesgos e esbugalhados para dizer: “-Muito, muito bem.”
O meu amado, com uma sombra em seu rosto, estendeu a mão até a face do experimento e gentilmente enxugou uma lágrima que eu não tinha visto. Ele se levantou cabisbaixo e respondeu. -“Fico feliz…P-Por isso.” Caminhando como um fantasma, meu pretendente passou por mim sem proferir uma única palavra a mais, voltando para o nosso quarto e dormindo mais cedo.
-"Mentira…” -Eu ouvi. De fato ouvi a voz do amaldiçoado, que surgia sentado diante de Sozserion, ou estava lá desde o começo, oculto nas sombras como sumira.
Na semana seguinte, ele implodiu misteriosamente e nunca concluiu a sua mutação. A minha ideia seria progredir estes experimentos, mas, ainda que não soubesse, a Suserana Do’Urden estava com os dias contados.
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Devo confessar que as minas esquecidas de Aldrus, muito me fizeram lembrar de casa. Parcialmente pelo fedor, parcialmente pelo escuro absoluto e muito pelos monstros que encontramos. O "Parasita da Perfeição" fora capaz de criar criaturas realmente aterradoras, não é? Moldar a carne e ossos para armificar mortais é uma arte que os parasitas conhecem melhor do que os seres inteligentes, devo dizer.
A principal fraqueza destes adoráveis espécimes é o ácido, que teorizo, sirva para cortar a conexão entre o hospedeiro e a criatura. Assim como o lupino leproso que encontramos na floresta, o longo verme apenas vestia a carne da criatura por cima de seus tentáculos. Suas criações não são as mais adequadas, mas de fato são um grande avanço e eu usarei isso ao meu favor.
Entendi que o meu erro até aqui foi tentar criar um corpo artificial completo ou mutar um já existente a perfeição. Encontrei a genialidade destes parasitas, contudo, pois são um híbrido de ambas as abordagens.
O meu sangue precisa agir como um parasita se eu puder converter meu mana em vida, nem que seja pouco sustentável, posso transformar uma porção de sangue em uma criatura viva que irá englobar o cérebro de um hospedeiro e se apossar de seu sistema nervoso. Para então mutar a carne para armificar a fera, posso deixar esse sangue em ph básico, para que cause uma reação química em contato com as ligas de carbono da pele morta. Isso não o deixaria fraco contra o ácido e, quem sabe o que pode acontecer quando for destruído?
Estranhamente, eu recentemente fiz os cálculos de progressão gama e notei que a impressão que tinha de minhas reservas de mana estarem em expansão não era tão improvável quanto pensei. Acredito sim que, com o uso desta fonte em expansão posso concluir avançar esse projeto.
Mas e quanto ao nome? Bem… quero que eles sejam temidos, não só temidos, mas repugnantes! Que deem nojo até aos mais bravos dragões. Quero que eles sejam terrores brancos como a luz que se vê quando se está à beira da morte. Eles serão meus amados Horrores Pálidos, e a melhor parte… é que serão só os primeiros servos do meu novo reino.
"Enfim, é chegada a hora do teu nascimento, meu Horror Pálido."
Mal posso esperar para criar o primeiro. É melhor que não pense que pode ser melhor que eu em meu próprio jogo, Sr. Aldrus.
Prometo que irá desejar nunca ter me desafiado.




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