Arnis Mordrain
Preto. Preto profundo, até onde os olhos podem ver há escuridão, e, de alguma forma, muito além. Do silêncio sem fim, o tilintar de uma pesada armadura ressoa em crescendo.
Ofegante e afoita, Arnis corria em direção a uma rústica espada órquica fincada no chão e abandonada nas trevas. Formas sombrias desenham-se e se aproximam. Monstros com diversas formas e rostos, sombras riscadas em constante movimento, como rabiscos de carvão em movimento.
Uma colossal silhueta humanóide liderava as outras menores com um enorme machado atrás da loira. O vislumbre da mulher vermelha removendo a lâmina do chão parecia trazer som ao mundo, agora enchendo-se com frases avulsas em uníssono, a formar a mais caótica orquestra.
-Calem-se, calem-se, CALEM-SE! -Bradava. Entretanto, ao fechar os olhos e tomar um longo fôlego, a amazona então salta para a luta, atravessando o comandante com a espada e, na sequência, tentando combater todos ao seu redor. Golpe a golpe ela derruba os monstros de carvão, mas a cada corte, um novo ataque a perfura nas costas, coxas, costelas e demais pontos expostos.
Não havia dor expressa em seu semblante, mas cada ferimento drenava sua pouca energia restante. Sua voz minguava a cada golpe a medida que as vozes ascendiam até se tornar uma insuportável babel.
-Não… Nã… Infinity… Meu Senhor… Guia...m-... -Murmurava até o fim.
Garras de ébano atravessavam suas costas, abrindo caminho por sua carne e eclodindo entre seu peito e ombro esquerdos. Sem sangues, apenas as linhas pintadas de carvão a impregnar a drukhalkin rapidamente a partir do local perfurado por uma entidade obscura que paralisava todos os outros, fosse por medo ou respeito.
Um arco imponente flutuava girando ante as costas do ser que, sem cerimônia, respeito ou pudor, liberta seu punho após pisar nas costas dela e empurrá-la até o chão, onde seu crânio seria pressionado, para enfim encontrar o silêncio mais uma vez.
Seria este o fim? Bem… É o fim merecido para uma fiel, para uma guerreira, ela ponderava ao sentir seu corpo em queda livre. Lutar até a morte para salvar seus soldados em uma batalha crucial que decidirá o rumo da Guerra enquanto o vento envolvia seu corpo e fazia seus cabelos dançarem. Sim, talvez este sacrifício tenha sido diferente do que ela sonhava, menos… “Órquico”, com certeza, mas algo a incomodava.
Olhos pesados. Um vento forte corre por seus cabelos e ressoa ante seus ouvidos. Sim, isso era o que incomodava, além de uma luz sobre suas pálpebras, como se o Sol tentasse acordá-la pela manhã. Como a morte era uma experiência engraçada… Quem diria que sentir-se-ia como quem cai de um penhasco em pleno sol do dia? O fim... Desde quando sente-se algo após a morte?
Como o filme que se vê antes que a vida se acabe, a Alta-Sacerdotisa vislumbrava fragmentos de suas memórias ecoarem em sua mente. Dor seguida de dúvida que a levou a construir determinação. A esperança que a forjou uma mulher melhor não veio de dentro de si mesma, de outra pessoa ou de algum objeto mágico, mas da palavra da salvação provinda de um Profeta.
Por muitos anos, Arnis rezou para que velhos textos descrevessem o momento em que ela veria novamente… Entretanto nada poderia prepará-la para aquele instante fatídico. Sua voz já havia retornado, mas lhe faltavam palavras para aquele que trás a salvação aos homens, afinal, o quê poderia ela fazer ante tal resplendor?
Pensou em agradecer por sua sabedoria, e seu mentorado, mas ele não é um serviçal.
Pensou em pedir perdão por seus pecados, mas ele é piedoso e misericordioso.
Pensou até procurar por suas ordens, mas ele não é carrasco.
-Meu senhor, todo poderoso… Estou tão feliz em revê-lo. - Balbuciava com as poucas forças que tinha. -Eu lhe amo com todas as minhas forças, meu senhor, eu… senti sua falta… O Mundo é tão inc-
-É um prazer revê-la, pequena Arnis. -Horus dizia em tom gentil ao acariciar seus longos cabelos loiros.
-
Enfim a mulher percebe que a ave dourada a salvara de uma queda no infinito pálido. Para todos os lados que olhava, via o branco sem fim composto por nuvens cinzentas em constante movimento, sem chão, paredes ou qualquer coisa além do vazio da existência. Apenas sobre sua cabeça havia um imenso vórtice de trevas. Não ironicamente, a única coisa que lhe impedia de desaparecer na imensidão era Horus.
-Meu senhor… Esse lugar? É fim? - Erguia seus olhos, inchados de tando chorar de encontro ao messias.
-Seria. Contudo, ainda não lhe foi dada a dádiva do descanso. -Ele afirma com voz ecoante ao mover os dedos pelo horizonte.
Aos poucos as nuvens no céu unificam-se e, como se o profeta pintasse em um quadro branco e, diante dos olhos dourados da fiel nasce a imagem do que parecia representar o fluxo de energia descendente que, ao tocar uma espécie de barreira horizontal, divide-se em múltiplos caminhos bidimensionalmente.
-Pequena Arnis. Quero que preste atenção nesta representação do pós-vida. -Horus falava ao apontar para a fonte da energia no topo. -Todo mortal a falecer tem sua alma levada para um plano além do nosso. Normalmente as almas são processadas e despachadas para seu devido recanto da pós-existência. -Fala movendo o dedo ao acompanhar o fluxo em queda até o ponto de separação, onde pareciam ser bloqueadas de cair.
Uma pequena luta ocorria entre o coração da matriarca, vivendo o alvorecer do momento que mais sonhara, e sua mente, que fazia o possível para acompanhar a explicação e entender o desígnio da entidade. Horus fazia de tudo para acompanhar a velocidade de compreensão da mulher para enfim mostrar falhas na barreira que permitiam que parte das almas continuassem a fluir para baixo até se aglomerar no quê parecia ser um grande vórtice profano a girar.
-E-Espera aí… -Ela falava franzindo o cenho e indagação. -Eu já vi esse efeito antes… Necromancia?
A vermelha fitou o semblante aviário de seu senhor que, para o desespero dela, assentiu em confirmação. -Azak é o seu nome verdadeiro. É por isso que os necromantes precisam ser combatidos, pequena. Para isso, Infinity a escolheu. -Dizia ele começando a pairar em queda lenta com Arnis ainda em seus braços.
-E-Eu? Mas… como eu posso impedi-lo? Eu… sempre estive tão perdida! -Confessava de olhos marejados. -No começo eu achei… que íamos pegar em espadas e lutar até vencer, como em uma guerra comum. Mas quanto mais lutamos, menos parece que temos chance… O quê eu posso faze-
-A resposta está em sua origem.
Ao ponto que Horus enfim fazia o impossível, pisar em um chão infinito e soltá-la para que pudesse andar mais uma vez, o modelo feito com as nuvens já havia se dissipado. Mas Arnis olha surpresa para a figura que esmaecia ante a eles dois, figura essa que, em poucos segundos, revelava-se um velho amigo.
-Arnis… Deixou o cabelo crescer? -Falava Vector Vandross. O antigo líder da Legião de Prata, um dos maiores ídolos da clériga. -Combina bem!
-Sir Vector! -Ela dizia ao se aproximar rapidamente e abraçar o homem. -Disseram que você estava morto! A Legião está um caco, mas estamos lutando juntos contra os n-
-Haha! Pelos deuses, garota, acalme-se! -Gargalhava o homem barbudo trajando uma estranha roupa de fazendeiro que retribuia o abraço de forma estranha. -Eu estou ciente de tudo… e conto contigo para ajudar a Legião a se reerguer… -Subitamente o tom de voz do homem parece modificar-se. -Só que não vim aqui para dizer isso.
-O quê quer dizer? -Indagava a mulher ao olhar brevemente Horus, falhando em encontrar expressão alguma em seu rosto.
-Bem, Arnis... Querida… -Alguma emoção estranha esboçava-se em seu rosto, seria ela remorso? -Eu nunca soube disso em vida mas… Você tem o meu sangue, é uma Vandross.
Vandross? O mesmo sobrenome de Vengar, Evelyn e Vector? Grandes heróis, símbolo da Legião de Prata e sua eterna contenda contra os Necromantes? Mas isso não era possível. Em qualquer outra circunstância, uma afirmação como essa soaria para Arnis como uma piada, de muitíssimo mal gosto, diga-se de passagem. Afinal… a híbrida nasceu e cresceu como mercadoria abandonada. Entretanto, algo no semblante do homem chamava atenção… uma lágrima escorria por um doloroso sorriso.
-Lorde Vector, eu-
-Eu… lhe peço desculpas, filha. -Desviando o olhar, o “homem invencível” pedia perdão. -Eu nunca quis lhe abandonar… Assim como não-
Naquele instante, Arnis movia-se leve como uma pluma de cisne, envolvendo o homem intensamente com os braços ao esboçar o mesmo riso choroso dele. Os braços da mulher eram fortes, mas não pelo seus músculos órquicos, ou pelo seu poder de Alta-sacerdotisa, mas pela força de seu coração. E por esse motivo, o Cavaleiro Argênteo retribuía em gênero número e grau.
-Está tudo bem… Pa- -Gaguejava ao tentar falar. -É difícil dizer isso…Mas tá tudo bem, P-Pai!
-Querida… Eu tenho muito orgulho de você… Sua iniciativa pode ser a chave para virar a guerra de uma vez por todas. Vocês estão cativando os corações de tanta gente… Trazendo esperança a um continente perdido! -Com um gesto de ternura, o cavaleiro ajeita a franja da moça com um sorriso gentil ao fitá-la nos olhos. -...Vecemir… Eu sei que existe redenção para ele.
-E-Espera ai… Quem é Vecemir? -Indagava a vermelha.
-Ele é… Bem, meu primogênito… -Esclareceu ele. -Mas em algum momento ele se tornou um Necromante… Entretanto, eu sei... -Uma breve e irônica gargalhada se esboça. -He he…. Eu sei que o sentimento que ele diz ter por Azak é real. Muito real. No fundo, ainda quero acreditar que ele é uma pessoa boa tentando mudar o mundo do jeito errado…
-Bem… Eu nunca pude saber de verdade, mas minhas suspeitas levam a crer que a magia da morte é necessária para o equilíbrio de tudo. -Ele suspira de leve. -Costumava pensar que eles eram um mal objetivo, mas se Vecemir… Se você mencionar a carta… A última carta que confiei a ele! Peça para ele abri-la!
-Vec- digo...pai… Eu não entendo… Eles trazem morte e caos, querem o fim de tudo-
-”Azak” busca o juízo final. -Horus corrigia ao se aproximar. -Contudo a morte faz parte no equilíbrio da existência, tal qual a vida.
-Eu… Não sei se consigo… Não sei se minha fé é grande o bastante para isso. -Suspirava temerosa.
-Lembra-te, Arnis. Não deves esperais a santificação para ir à batalha, mas ir à batalha e orar que esta a santifique. -Horus dizia radiante como sempre, chamando-a em seguida. -Perceba uma coisa.
Ao se virar para o profeta, a Matriarca vislumbrava algo de tirar o fôlego. Ante seus olhos jazia o que parecia ser um portal, de volta ao mundo material, este que projetava um grande e apertado abrigo de civis da guerra. Uma criança tinha dificuldade para dormir e seu contava histórias fantásticas de como “O Pacto Platina salvaria o continente como salvou Grimburg”.
-Crepúsculo dos Condenados? -Arnis balbuciava sem forças para acreditar.
-É como eles te chamam. Você provou para os governos do continente que Notheroc e Itzauguroth são vencíveis. -Dizia Vector. -E provou para seus aliados o quê a união improvável de povos diametralmente opostos pode fazer...
Pouco a pouco, sem que a vermelha percebesse, as nuvens começavam a rodear Arnis e seus pés se tornam mais e mais leves até desprendê-la do chão.
-E, através de ti, Infinity se manifestou para cada uma dessas pessoas. -Horus concluía com uma voz tremulamente contente. -Sinta, Arnis! Infinity abençoou cada um de nós com o poder de escolher nosso próprio destino. E tu escolheu segui-lo, entregar tua vida a ele e deixar que ele opere por ti! Para os homens e mulheres há muitas coisas impossíveis… Para Infinity… Não há nada impossível.
Emocionada como nunca antes estivera, a criança escarlate tentava chorar, mas as lágrimas se recusaram a respingar conforme ela era levada pela névoa transmutada em penas cintilantes a rodopiar. Suas pupilas já estavam secas e a hora de lamentar o sofrimento chegara ao fim, seu coração não endurecera, mas crescera, caloroso, cheio de amor tanto pelos mortais quanto pelos imortais. De alguma forma, ela sabia que o dia fatídico estava para chegar enfim, Arnis, abanar para as duas figuras, ascendida rumo à escuridão do céu daquele mundo de branco sem fim.
Arnis Vandross Mordrain, visa seu destino ao subir confiante. Pois enfim compreendera que o que o peso que sentia em seus ombros não eram fardos e correntes como parecia ser, mas sim, asas que abrir-se-iam e impulsionaram-na ao infinito.





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