Alice Von Teiassomba


(Música para a Imersão)

-”Inquisi… Dor…”

Gemia a jóvem, a desacordar e cair despejada sobre o chão. Seus joelhos, outrora tão torneados, agora não mais a sustentavam tal qual sua brilhante aura não mais cintilava no escuro… O Alto-Inquisidor, cansado com os ombros a pesar após a longa missão de ataque a Thromheim daquele dia de longas caminhadas e mortais combates. 

 -”Soldado! Pegue a água benta e orai! Juntos traremos Alice de volta para nós!”

-”Alto… inquisidor… por favor… me-”

-

-”Alto Inquisidor! Por favor! Conjura a Chama Mãe Sobre mim antes que as Sombras…” -A voz da jovem ia desaparecendo e minguando lentamente ao perceber que tudo ao seu redor havera se tornado nada mais que a treva sem fim, como se pisasse em um planetário com galáxias em movimento no lugar do chão e das paredes. 

 Alice já esteve neste lugar mais de uma vez, claro que apenas em espírito, mente, alma ou seja lá o quê sua raça crê. Ela caminhara por este antro de sombras e informações caóticas com ramificações e caminhos que tinham destino para todo lugar mas levavam a lugar nenhum. 

 -"Não…" -Dava um passo para trás, quase como se fosse possível fugir da sina do universo.

 Freneticamente procurava por uma luz. Alice sabia que, cedo ou tarde, as sombras a mostrariam uma visão mentirosa ou desmentiram uma verdade para violar sua fé. 

-

Da última vez as sombras lhe entregaram um presente: uma caveira obscura adjacente de um portal transdimensional, mas isso fora em outro tempo e para outra Alice. Uma Alice ainda não renascida em chamas de fé.

 Junto desta regalia, um retalho da realidade a mostrou uma imagem: o cavaleiro da morte quase esquelético que, com as últimas forças pressionava o monstro amaldiçoado feito de puro caos e treva. Enfim os tentáculos da criatura fraquejam e, com auxílio de elfos, orcs trolls e… seis curiosas gemas de poder, o Deus antigo é irrompido e velado novamente nas profundezas do Vazio. 

 Sim! O Legado de Honra que a protegeu de Ny'arlothotep, enquanto este tomava o corpo de seu irmão Lucius. Se não fosse por aquele cavaleiro da morte chamado Nurgle tê-la salvado e levado às pessoas certas, Alice hoje seria um segundo receptáculo para aquela criatura que desvirtuou a humanidade de seu irmão. 

 Aquela caveira que o Vazio a concedera, era de Nurgle… também conhecido como Luciel, seu segundo irmão que morreu durante a terceira guerra. Não era? 

-

-"Ó minha Mãe Sagrada. Rogo-te neste dia e nesta hora, sejam elas qual forem, pelo teu brilho em meio à perdição! Sob tua luz jaz o meu caminho e contigo jaz meu coração e alma. Ó gloriosa Chama Mãe, rogo-te em desespero, guia-me mesmo em meio às trevas infindáveis…" - Pisando no nada do Vazio, a Teiassombra rogava com fervor incessante à sua Chama Mãe.

 A Escolhida sabia hoje que, tinha infinitos caminhos a sua disposição, mas, independente de qual tomasse, o final seria o mesmo e perder-se-ia de sua matrona. E isso era tudo que a jovem aprendiz não queria, portanto, caia de joelhos no chão e orava por respostas… RESPOSTAS! NÃO MAIS PERGUNTAS TAMPOUCO DEVANEIOS! 

 Após horas a fio de oração naquele universo paralelo de metamorfoses contínuas, enfim algo toma os olhos cerrados da jovem e, como o brilho do sol pela manhã, penetram suas córneas tal qual tocam seu coração. Será que a Chama Mãe a concedera uma última bênção? Não… Essa seria apenas mais uma de uma série sem fim de brilhos divinos da mãe de todos para com seus filhos. 

 Alice vislumbrava um brilho cintilante se expandir no horizonte do espaço tempo o qual estava presa e girar lentamente em uma glória majestosa que parecia afastar as sombras para os confins mais obscuros de sua morada. A Chama Mãe, por essência onipotente ou através das preces daqueles fiéis que se dedicavam tanto a salvá-la de eternos tormento e dúvidas. 

 A morena garota de cabelos esvoaçantes ante ao brilho intimidador da Chama Mãe para consigo caminhava lentamente e estendia as mãos. Seus olhos enchiam de lágrimas bem como seu coração enchia-se de uma tormenta intempérie de emoções ante ao que via pois, bem como, a sombra mostra múltiplas visões que se contradizem e levam à loucura, a Luz também mostra visões muito menos frequentes para aqueles escolhidos quando é de uma vontade da força motriz do universo. 

 -“A- Agora… Eu entendo… Agora eu posso ver…” -Um sorriso nascia nos lábios secos de Alice. Sua voz falhava por falta de ar e garganta seca. -“Esta caveira.. Não é de meu irmão.”

-

  Uma caveira negra, rachada na parte superior, com buracos infinitos no lugar dos olhos que outrora a Escolhida decide colocar no topo de seu cajado. Esta agora a observava como… se tivesse vida, como se possuísse alma ou noção de sua existência. Aos poucos a entidade se vira de costas para Alice em meio à um universo branco sem fim, pouco a pouco tentáculos de sombra e linhas flamejantes de sacro fogo davam forma à um corpo feminino dividindo-o por completo. O lado esquerdo é sombra… mas o direito é luz, a pura e perfeita imperfeição. Esta era…

 -“Rei… nadriel?”-Alice suspirava para si ao ver aquele corpo tomar a forma da única pessoa que um dia amou. A energia transmutava-se em carne, osso e pele, tão bela quanto aquela garota, filha do Sin’dorei Sarvet e da Humana Erauthiel.

 Os cabelos curtos e escarlates eram iguais, as curtas, porém pontudas orelhas também. Até mesmo seus olhos profundamente humanos mas brilhantes como os de um elfo davam espaço, o esquerdo safira como o de seu pai enquanto o direito, esmeralda como os de sua mãe. Alice não tinha dúvidas e, por isso, corria a largos passos que pareciam se dar em câmera lenta para envolve-la com seus braços.

 -“REINA! Eu… você… Nós tínhamos um plano! Iamos… Viver juntas longe de toda guerra… Longe de toda dor…” -A Morena, maior que a ruiva se abaixava e abraçava com o afeto para uma amiga e o ardor de uma paixão.  -“O que aconteceu com você?”

 Um abraço caloroso era tudo que Alice queria e era isso que ela recebia daquela figura de Reinadriel conforme ouvia um som leve, como uma panela de pressão a despejar gas: “Tssss”, esta eram as sombras que eram expulsas do corpo da menor conforme ela retribuia o abraço sorridente ao ver uma fumaça negra surgir de seu corpo e se espalhar para o mundo. Reinadriel sorria e chorava, tal qual Alice nunca pode ver… Com a Chama Mãe tudo era possível, principalmente descobrir que, a última regalia de Reinadriel ainda estava em suas mãos, todos os dias e todas as horas, enfeitada ao topo de seu cajado. 

 Tocando o cabelo de Alice, a figura de Reinadriel trazia a verdade. Não era apenas uma existência abstrata ou uma mera ilusão perdida em seus sonhos, mas sim a própria Reinadriel que fora trazida até a Nobre Escolhida para conceder um último adeus. Essa dádiva fora concedida pela Chama Mãe… Era uma prova de que sua fé estava no lugar certo e que suas motivações não podiam ser outra! A Chama Mãe cuida de seus filhos e filhas e agracia aqueles que têm fé com sua proteção tal qual um carinho extraplanar que hereges e almas de fé fraca jamais poderão compreender…

 Mas como? Uma criatura que possuía as sombras não poderia estar junto a chama Mãe após sua morte a menos…

 Subia lentamente o som de um chiado que, pouco a pouco ganha forma nos ouvidos de Alice. Não era o vento ou a aura de energia divina, mas sim… Uma prece.

 -"Por favor, minha Luz, sei que pequei por toda minha vida, mas minha família nada tem a ver com isso. Ilumina estas vidas em nome de tua pureza… Sarvet, Mysandra, Helena, minha doce Erauthiel e a querida Alice." 

 Está prece, vinda de uma voz masculina de um idoso a beira da morte intrigava Alice que via a figura de Reinadriel agradecer com a cabeça e acenar com mão ao se afastar, como se despedisse… uma centelha de fogo brilha no além e, antes que a morena pudesse se tocar, a ruiva era consumida por pilar chama sagrada.

 Labaredas voam pelo céu fazendo uma cúpula ao redor de Alice que, ao descobrir seus olhos, pode vislumbrar a imagem de uma mulher de longos cabelos platinados com uma espada de fogo em mãos sussurrar em uma postura imponente. -"Que a Luz tenha piedade de vossa alma… meu pai." 

Como um peixe fisgado por um hábil anzol, Alice é puxada de uma só vez de volta para a realidade. Mal ela sabia o que esperar ou o que pensar, contudo, sabia o que fazer.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Alice von Teiassombra & Reinadriel Vermelhalvorada

No recanto dos Mortos

Sauralis Almanoite