Campanha: "O espelho do meu inimigo" (Legado de Honra)
Silêncio habitava uma sala escura, pouco iluminada por modestas e pequenos pontos de luz com várias cores diferentes. Talvez poções de alquimia ou, quem sabe, gemas brilhantes.
As luzes pareciam alterar o brilho em ondas aleatórias, algumas apagavam um pouco enquanto outras ascendiam, comportando-se com ondas estranhas de luminosidade. Balanço esse que seria quebrado em alguns minutos com a abertura do que pareciam ser cortinas de luz, revelando um grande esquemático de velas como de catedrais e um velho de físico bem treinado, longas e enroladas barbas assim como seu cabelo castanho extraordinariamente curto.
O humano abre aos poucos os seus olhos e resmungando para a figura ainda ofuscada pela luz segurando algo de baixo do braco, nem se dando ao trabalho de se levantar. Contudo, apenas um longo e sonoramente sujo era ouvido antes da voz desse.
-Linus. O quê você quer... já são duas da manhã.
Com o fechar das cortinas daquele lugar que mais parecia uma tenda de acampamento, um lampejo de luz arcana corre pelo local até atingir uma lamparina, assim ligando-na. Tal ação revelaria o mago de cachos negros fora de suas vestes de combate e apenas trajado de uma branca camisa e uma marrom e larga calça.
-Pela luz, Ulric... Ainda com essa barba gigante? O quê foi? Passou tempo de mais com os orcs e perdeu a noção da higiene? -A fala do mago era extrovertida, animada.
-Você quer que eu te conte? Eu te conto de uma vez. -Murmurava com a voz áspera, não parecia usar muito suas cordas vocais. -Prometi à mim mesmo que só a cortaria quando vingasse Liam.
Ao invés de retrucar o comentário com razão até de mais, o arcanista se abstém. Afinal de contas ele perdera a filha para o Legado de Honra assim como Ulric. Eis que, após se abaixar um pouco, se sentaria diante de seu amigo.
-Mas e por quê a barba exatamente? -Quebravam-se os segundos de silêncio.
-Quer saber Por quê? Eu te digo por quê... -Apesar de sua postura rígida, Ulric parecia tomar algum tempo para tentar formular a resposta - Ah eu sei lá. Fico mais intimidador assim.
-Espera lá... então você espera poder amedrontar orcs com essa barba e só? Quer dizer, quem sabe isso funcione com Goblins e Elfos mas com orcs...
-Ah tu não entende nada né não?
-O quê? Não foi isso que quis dizer?
-Como não é combatente corpo a corpo, vou te explicar... -Ulric falava em um longo suspiro. -Intimidar é diferente de
Amedrontar, seu banana. Claro que não espero fazer orcs fugirem de medo, mas pelo menos deixa-los com receio, que pode atrasar um movimento ou outro, me dando uma pequena vantagem.
Uma expressão de compreensão vinha do feiticeiro à medida que escutava.
-É... Pode ser que funcione. -O feiticeiro deixa o pequeno baú, que carregava de baixo do ombro, entre os dois.
-Que... porcaria é essa, Linus? -Perguntava tentando voltar a meditar, abria somente um olho.
-Abre antes de jugar, criatura! -Linus retrucava de cara fechada. Se era de brincadeira ou não, o paladino fazia o pedido.
(Musiquê para Imersê:)
Desinteressadas, as mãos brutas e operárias do Paladino abriam a caixinha num contraste quase cômico. Um pacote estranho, o quê havia dentro não parecia estar muito bem cuidado, estranho para Linus, sempre metódico de mais com tudo.
Alguns segundos levariam para que o homem rígido conseguisse abrir aquele saquinho de tecido roxo fechado por uma branca corda. Ao instante que aquelas robustas mãos concluem a abertura do mesmo, porém, são paralisadas, tal qual todo o corpo do paladino.
-Não pode ser... Como conseguiu isso Linus? -Os olhos do cavaleiro se enchiam de lágrimas ao segurar em suas mãos o que parecia ser um simples boneco esculpido em madeira.
O arquimago abstinha-se de palavras ao primeiro instante... apenas sorria tão emocionado quanto o amigo. As mãos bem mais delicadas do cacheado arcanista davam apoio para as rígidas e desgastadas do paladino.
-O Liam... Eu entalhei isso em madeira para ele quando tinha só cinco anos...
-Desde que você se uniu à iniciativa da Remanescente de Guardanorte, Liam guardou o boneco. -Num singelo sorriso, o arquimago completa. -Ele dizia que o inspirava a lutar pelo bem apesar dos malefícios que há no mundo...
Mais que marejados, o único olho do guerreiro enfim transbordava em uma cachoeira d'água conforme encolhia-se abraçando o objeto.
Como Ulric dissera, em uma tarde morna, ao início de sua paternidade, resolveu fazer um brinquedo para seu filho uma vez que não tinha dinheiro para comprar um. Em madeira entalhava com uma faca velha a sua própria imagem, não era um homem muito criativo. Pensar que seu filho tinha aquele simples boneco como seu maior herói e, ainda mais, que Liam fora capaz de dar sua vida em prol da liberdade de seu pai era uma sensação... indescritível.
-M-Me desculpe meu filho... Eu não pude te proteger dos orcs...
O único amigo que lhe restara movia-se com sutileza e lentamente punha o braço sobre os ombros do cavaleiro que lhe inspirara a se fazer um mago. Linus, diferente de Ulric era sim muito bom com as palavras... contudo, conhecia bem seu melhor amigo.
Um abraço e carinho não trariam Liam de volta... mas ao menos mostrariam ao cavaleiro que ele não estava mais sozinho.
-Por cidades da Horda estes homens tem seus cartazes de procurados como abaixo.-



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