A Trilogia da Vingança: II
Musiquê para Imersê:
Branco... Um branco sem fim era tudo que eu podia ver ao caminhar pelos Ermo das Serpes. Chegava a ser enlouquecedor, mas dificilmente me faria mais instável do que já estava depois de ser "formalmente dispensada do restante da campanha de Nortúndria".
Mal sabia eu que o Grão Lorde Bolvar havia me salvado do pior destino que poderia recair sobre minha cabeça, mesmo que ele não fizesse ideia do que o aguardava na Batalha dos Portões da Ira, menos de uma semana depois. Mesmo ingrata e furiosa, eu acarretaria às ordens dos meus superiores e "voltaria para Ventobravo, cuidar do povo." Mas... não antes de pagar uma visita que, há muito, precisava ser feita.
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Desde as guerras em Terralém, eu treinei, estudei e aperfeiçoei minha técnica. Tal batalha me mostrou o quão longe eu ainda estava daquele que me ensinou, mas também me indicou os meus pontos fracos assim como os dele.
Dali em diante eu sabia que meu estilo de luta descontrolado, similar à mistura de uma orquisa berserker com uma draenaia sacerdotisa, não me permitiria derrotar alguém tão focado e emocionalmente inexorável. Mesmo que treinasse muito minha forma de retribuição ou minha forma de proteção, não o superaria. Por quê?
Porque o estilo dele ia além do que aprendemos na academia. Pouco se movia, mas muita energia era canalizada, transferida e dobrada fazendo até as suas leves armas serem levitáveis, rodopiando pelo campo de batalha como bumerangues arcanos.
Isso tudo por que ele tinha duas coisas que eu nunca terei: Mil anos de estudo e Paciência.
Não seria por isso, no entanto, que Sarvet era imbatível. De fato, sempre foi um adversário formidável, mas havia uma área da Luz que o sin'dorei desconhecia... Exorcismo e fogo sagrado. Áreas que a Cruzada Escarlate desenvolvera e escrito diversos pergaminhos a respeito, muitos dos quais, ficaram disponíveis para os fiéis na Biblioteca da Catedral da Luz em Ventobravo após o primeiro assalto ao Monastério.
Como, bem sabe, eu participei da campanha contra a Cruzada em nossa terra natal e guardei alguns destes tomos, os quais estudei arduamente entre um combate e outro. Pratiquei e, enfim, tinha desenvolvido um estilo-protótipo que viria a se tornar a "Luzardente", como hoje é conhecida.
Você sabe bem o quanto uma espada em chamas de vingança pode ser mortal. Por isso fiz e tudo para forjar uma arma com uma liga de aço formada majoritariamente de Prata , o metal que melhor conduz energia térmica e então, praticar com a mesma até atingir a maestria. E assim, eu me tornaria a lâmina divina que romperia até o último escudo de Sarvet Vermelhalvorada. Julgaria aquele maldito profanador do nome da Luz para, finalmente... livrar o mundo dele.
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-Temos assuntos a tratar, "Velho Cavaleiro". -Eu bradava à ele, já com minha lâmina em mãos.
Ele estava acompanhado de um troll lançanegra, deveras misterioso que carregava um arco e uma aljava. Parecia não lidar tão bem com o frio quanto eu e Sarvet. Entretanto, senti que ele ficaria ativo o bastante para me atacar se fosse necessário.
-Senhorita Era... -Sua capa vermelha dançava com os ventos da nevasca. -Jás apta à me ouvir- -O troll punha a mão no ombro dele e sinalizava o óbvio... que eu era uma ameaça, mesmo que ele não quisesse aceitar.
-Você sabe por quê estou aqui. -Irônicamente podia ouvir um silêncio pleno se fazer no local e o rugido de alguns dragões ecoar pelo gélido deserto. -Não tenho e nem nunca terei assunto contigo se não a morte.
A espada em minhas mãos entrava em ignição sendo envolta em chamas. Estava pronta, mesmo que tivesse de enfrentar os dois, morreria tentando se preciso. Eu via ele suspirar e negar com a cabeça, no fundo, imagino que estivesse certo de minha derrota...
-Cara... Vai dá ruim... Ela não vai aliviar pra ti não...
-Esqueça, Ohon... -Sarvet respondia ao sacar sua espada e seu escudo e preparar sua estância para o caso de um ataque surpresa, movimento esse que muitos combatentes habilidosos falhariam em perceber. -Esta é uma luta a qual preciso estar apto de vencer sozinho.
-Biiixo... tu não escuta a gente mesmo né não? -O Troll Ohon'tor suspirava em desistência... Parecia mesmo sentir empatia de um elfo... vai entender. -Beleza. Vou deixar tu e a doida "conversarem"... Mas depois, não diz que não te avisei.
Sarvet acente com a cabeça e parecia entregar algo para o troll que, sem delongas retirava-se, sumindo em poucos segundos na neve. Sim, enfim eu tinha ele aonde queria, de fato esperara tanto que podia ver a grama sob meus pés regada à neve derretida após tanto tempo que mantive minha espada em chamas.
-Enfim poderei livrar o mundo das suas mentiras.
-Quais mentiras? Que a amava? Que Luz está acima de qualquer conflito ou que faria de tudo para-
A espada colidia com o escudo do elfo que, agora estava em posição defensiva, flexionando ligeiramente as pernas para receber o ataque. Estou certa de que os ecos do meu rugido furioso seriam ouvidos até pelos dragões azuis do Nexus.
-NÃO FARIA NADA PARA ME SALVAR! Eu e você sabemos que, na primeira fraqueza, se tornará um escravo imundo da vileza, ou do arcano, como antes!
O cavaleiro recuava e então fechava a guarda apenas para receber mais um corte de minha lâmina. Sim, eu estava mais que ciente que não faria mais que arranhar aquele escudo Sin'dorei, mas... não era esse meu intuito.
-Se prosseguir a teimar, o resultado há de se repetir, Erauthiel! Meu escudo imbui-se com o brilho de minha fé!
-É aí que você se engana... -Sem que ele percebesse, conjurava a luz em minhas mãos para enfim projetar e arremessar uma flecha flamejante nas costas dele.
Eis que, tal ataque o fizera mover o corpo e, como havia planejado, abrir a guarda para o meu real ataque. Com minha lâmina inflamada, desfiro sob seu peitoral uma rajada de cortes.
-Argh! -Sem equilíbrio, caía para trás, fincava as grevas no chão e arremessava um martelo de luz na minha direção. -Não me forçe a coloca-la de volta em teu lugar!
Sim, o golpe era conjurado com a maestria de mil anos e acertava como uma bola de canhão em minha espada, entretanto, a Luz e as chamas não serviam apenas como ofensa. Um sorriso surgia em meu rosto ao receber o ataque, não me ferindo e apenas sendo arrastada um ou dois metros, capaz de manter meu equilíbrio e voltar à posição de combate.
Podia ouvir o começo de uma fala com base na falsa moral começar a ser profanada por ele, contudo, meus ouvidos não estavam mais abertos para nada do que ele dissesse. Mais uma rápida conjura enquanto a espada se mantinha à minha frente empunhada pela oposta mão, desta vez, enfim, minha orbita de fogo sagrado formava-se e avançava.
Em um milésimo de segundo, levantava o escudo para se proteger, assim como eu previra. Era irônico pois, pela primeira vez, me sentia no controle quase absoluto de um combate e justamente a vítima era o próprio Portador das Shal'dor. Eu conhecia os passos dele, a forma como defenderia e a forma como eu contra-atacaria.
Um. Dois. Quatro, sete, onze e... o número dos meus ataques subia exponencialmente. Todos os golpes, precisamente defendidos por ele com o mínimo movimento do escudo, apenas deixando o calor ricochetear pelas laterais e, além de derreter a grossa camada de neve sobre o chão, evocar um verdadeiro anel flamejante em torno do cavaleiro.
-Desista, Von Glory! Teus ataques se mostram inúteis! -Ainda em guarda ele dizia quando uma cortina suave de vapor d'água ascendia ao seu redor. -É uma questão de tempo para ficar sem energia como da última vez.
-Pode estar certo... -Eu dizia até abrindo um sorriso ao vislumbrar o espanto em seu rosto enquanto preparava minha próxima técnica. -Entretanto, todo sacrifício é pouco para te derrotar.
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Entretanto, como bem sabe, o grande perigo da Doutrina Luzardente jaz na técnica do Julgamento Flamejante, Arkaizer. O mesmo que me deu o título, diga-se de passagem. Nele, concentro a energia sagrada na minha espada erguida, o fogo se acumula com o do ambiente, concentrando e atingindo temperaturas absurdas. É então que, com um movimento similar à um arremesso, disparo uma rajada laminar feita de puras chamas que pode ir até, no mínimo cinco metros de altura.
Eu sei que parece bem complicado, mas com tempo e prática, você também vai conseguir mestra-la.
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Aquela era a segunda vez que dispararia aquela rajada, todas as fibras do meu corpo e da minha alma convergiam para tal. Via ele preparando o escudo diante de si e expandindo a luz de sua barreira ao máximo para se quer tentar controlar os danos do ataque. Um estrondo ensurdecedor ecoava em minha cabeça até me fazendo perder o equilíbrio.
Debilitada, surda e abatida, eu conseguia, por muita sorte me reerguer. Pernas bambas, espada trincada e armadura totalmente chamuscada... Mas de pé, diferente de Sarvet. Enfim o momento havia chegado... O momento o qual eu poderia erguer minha espada e levar aquela alma corrompida envernizada de piedosa deste mundo.
Contudo, cheguei a chorar emocionada ao erguer a lamina para arrancar a vida do elfo inconsciente, me arrependendo amargamente com uma dor estranha e perfurante que se alastrava da minha costela para o resto do meu corpo em segundos. Minha mente esvaziou e caiu em um branco sem fim, meus músculos perderam a força e não mais me sustentavam de pé.
A ultima visão que tive daquele dia fora o mesmo troll de antes com o largo arco apontado para mim e... uma flecha fincada na minha costela. Agora que minha capa estava queimada, as juntas da armadura se faziam visíveis. Malditos trolls e sua visão aprimorada.
Sarvet fora derrotado, mas... eu não pudera tomar sua vida. A luz... não queria isso afinal, por algum motivo... o tempo me ensinou que esta fúria frenética não era a maneira a qual eu deveria empunhar uma espada imbuída de luz.
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A cavaleira acorda na enfirmaria da Bastilha Invergarde, totalmente enfaixada e dolorida. Um suspiro gélido é soprado, lhe fora dito que fora acertada por uma flecha mergulhada em veneno de manticora. Me botaram para dormir mas não me mataram mais uma vez. Isso, por muito atormentou a minha mente, me fazendo buscar o porquê de ainda estar viva.
Foi então que voltei para Ventobravo e encontrei contigo mais uma vez, apenas servi como guarda até o final da campanha em Nortúndria. Mas foi ao receber a notícia da morte do Lorde Bolvar que, enfim tomei consciência do quão cega me torno em batalha se minha função é meramente matar. Desde então, me dediquei à doutrina sagrada de uma curandeira. Assim, protegeria as pessoas ao invés de matar os inimigos.
Foi então que voltei para Ventobravo e encontrei contigo mais uma vez, apenas servi como guarda até o final da campanha em Nortúndria. Mas foi ao receber a notícia da morte do Lorde Bolvar que, enfim tomei consciência do quão cega me torno em batalha se minha função é meramente matar. Desde então, me dediquei à doutrina sagrada de uma curandeira. Assim, protegeria as pessoas ao invés de matar os inimigos.
E como bem sabe... meu estado mental se beneficiou muito com isso. Até fui capaz de rever Sarvet em Draenor sem ataca-lo... Só espero que, um dia, a justiça seja feita de uma forma ou de outra...

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